Um Herói



Eles eram 6 amigos que estavam caminhando na beira da estrada, quando subitamente foram alertados do perigo e o carro que vinha capotando em altíssima velocidade foi desviado de sua direção por essa figura heróica apenas com a mão, e em seguida os perguntou se estavam bem após o susto.

Por mais que o parágrafo anterior pareça obra de ficção, ele foi transformado para o parecer apenas modificando seu final. Os outros 85% são verídicos, e explico. Era o Rally Internacional de Erechim de 2004 e estávamos eu e mais 5 amigos voltando para o ponto onde os carros saltam na especial Salto dos Verdureiros quando fomos informados pelo fiscal de pista que deveríamos contornar por trás do mato e não pela beira da pista para prosseguirmos ao nosso destino. Não mais do que 15 segundos depois ouço um forte barulho e me viro para ver o que acontecia (era o último da fila) e vejo duas coisas caindo: um Corsa que parou de rodas para cima e algo que demorei a reconhecer, pois caiu a não mais de 2 metros de distância de mim num monte de capim mais alto, e quando percebi que era uma pessoa que ali estava gritei, para chamarem uma ambulância. A cena era muito forte. Apenas vi o seu desfecho, mas as mais de mil pessoas que ali estavam a viram inteira. E correram para onde estávamos para ajudar os envolvidos no acidente. Poucos minutos depois a ambulância chegou para fazer o resgate e todos os que ali estavam tomaram seus rumos, em silêncio, sem acreditar no que acontecera. Lembro perfeitamente de que a vontade de continuar assistindo àquele rally esmaeceu por completo naquela hora, afinal uma vida poderia ter se perdido. Pelo menos essa foi a impressão que tive ao ver o corpo. Mais tarde ficamos sabendo que ele não havia morrido, mas que estava numa situação bastante complicada na UTI. E o rally tinha que continuar.

Irineu Ribeiro é o nome da figura heróica do primeiro parágrafo. Graças a ele que estou escrevendo essas linhas. Seu trabalho era impedir que desavisados passassem por um trecho perigosíssimo da pista. Mas para fazê-lo, era preciso permanecer nesse trecho. Felizmente ele estava ali. Infelizmente foi atingido pelo último carro que passaria por aquela Especial. Felizmente sobreviveu. Infelizmente nunca tive a oportunidade de agradecê-lo por ter salvado a minha vida e a de meus amigos. Felizmente posso escrever essas parcas e pobres palavras, que não conseguirão nem de longe expressar minha gratidão.

Irineu Ribeiro é um herói. Anônimo, silencioso e igual a qualquer um de nós. Ele merece todas as homenagens possíveis. Ele e todos os outros heróis anônimos que se voluntariam para ajudar nos rallys e autódromos mundo a fora para manter a segurança do evento e garantir o espetáculo da velocidade, que é muito perigosa e deve ser respeitada. Não é à toa que todos os eventos oficiais da FIA possuem a famosa frase em inglês: “Motorsport is dangerous”. Automobilismo é perigoso.

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