SAC



Suponha que os seguintes cenários sejam verdadeiros:

Cenário 1: Uma corrida num autódromo de interior, com muito verde, poucas arquibancadas, muitas pessoas acampando e fazendo o seu churrasquinho para curtir com os amigos enquanto apreciam a excelente corrida que se passa ali a poucos metros deles. O que se percebe nas imagens da transmissão é que há bastante gente e elas estão pouco ou quase nada preocupadas com luxo, glamour, ou qualquer outra coisa que não seja curtir a corrida no lindo dia de sol que lhes foi presenteado.

Cenário 2: Uma corrida num autódromo de capital, com muitas arquibancadas, muitos camarotes para convidados de patrocinadores com quitutes, bebidas e mulheres bonitas para atrair somente bolsos polpudos que possivelmente irão se interessar pela marca que os está bajulando. As arquibancadas muito organizadas por patrocinador, bastante coloridas e cheias de gente feliz torcendo pelo carro do patrocinador.

Agora a pergunta: A que países pertencem cada um dos cenários descritos?

Acertou quem disse na ordem EUA e Brasil apesar (ou por culpa) das aparências.

Estava assistindo à Petit Le Mans e visualizando exatamente o cenário 1 quando pensei em escrever sobre isso, quando tracei um paralelo com o automobilismo brasileiro, pensando única e exclusivamente “extra pista” (se é que essa palavra existe, com ou sem hífen, valeu reforma ortográfica), pois seria humilhante comparar o que havia na pista nessa corrida da American Le Mans Series (Audi R18, Peugeot 908 e demais brinquedos) com o que vemos correndo por aqui (salvo algumas exceções, devo salientar).

Voltando ao ponto, meu pensamento voltou-se ao modo como os torcedores são tratados lá e cá. Lembrando de outras corridas de categorias mundo afora que assisti, com muitos gramados de onde as pessoas assistem, com locais de acampamento, ou de estacionamento de motor homes, fica claro para mim que as pessoas são tratadas como torcedores, fãs, amantes do automobilismo. Essas pessoas não estão ali a não ser para assistir, curtir, sentir o que gostam, amam ou adoram. E vendo de longe, é difícil imaginar que os organizadores de cada um desses eventos vejam essas pessoas de outra forma.

O segundo cenário já pode ter surgido na cabeça de cada um como um evento de cada uma das principais categorias brasileiras. Não em qualquer autódromo brasileiro, devo dizer. Mas é bastante claro que por aqui os organizadores vêem os torcedores como possíveis clientes, seja de medicamentos genéricos ou bebidas energéticas, que hoje são os maiores patrocinadores vistos nos autódromos brasileiros. E não estou aqui criticando patrocinadores, pois são eles que tornam essa brincadeira caríssima viável.

O que fica claro é que os organizadores querem atrair quem é sentado na grana, como também pode ser visto em alguns eventos monomarca, que multiplicaram-se nos últimos anos, graças a essa onda de prosperidade econômica que instalou-se em nosso país. E por isso vemos de um lado estacionamento lotado de carros importados, Bê-êmes, Porsches, Ferraris e afins, camarotes lotados, muita gente bem vestida e desfilando pelos paddocks, e arquibancadas vazias, pois as corridas não são devidamente divulgadas ao grande público, não há infra-estrutura de alimentação e higiene decente, e talvez por muitos outros motivos. Há autódromos inclusive que não tem sequer lugar para acampar ou fazer um churrasquinho pra galera como se faz em países do “primeiro mundo”.

Percebe-se que aliado a isso, a programação dos eventos não ajuda a atrair público, pois quando há mais de uma corrida agendada, deixa-se um espaço de tempo muito grande entre uma e outra, e as pessoas não gostam de ver pista vazia, nem de passar fome nesse ínterim. Mas o importante é os clientes estão devidamente alimentados e acolhidos nos confortáveis camarotes com TVs de LCD gigantescas assistindo a cada detalhe da corrida, coisa obviamente impossível de ser feita das arquibancadas.

*Agora deve estar claro porque o título é SAC – Serviço de Atendimento ao Cliente

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