Precisamos de mais pilotos de Rally



Por que pilotos de rally são diferentes de pilotos de corrida em pista fechada? Serão eles melhores? Serão eles piores? O que os diferencia? É muito difícil compará-los, quase impossível até. É como comparar jogadores de futsal com de futebol de campo. Felizmente existe  um “alien” chamado Sébastien Loeb que já viveu nos dois mundos e será utilizado nesse exercício de reflexão.

Ninguém pode duvidar da capacidade de Loeb como piloto de rally, afinal os números são claros e 9 títulos mundiais consecutivos não é qualquer um que consegue qualquer que seja a modalidade. Mas muito além dos números, ver o que ele faz com um carro de rally é o que mais espanta, e fascina. Porém, pode ser que nem todo mundo saiba da carreira de Sébastien Loeb nas pistas de corrida, batendo roda e porta com outros pilotos. E nessa modalidade o fato é que o “alien” se torna um “ser normal”, e novamente os números mostram a dura realidade: em 27 corridas de sua carreira no FIA WTCC, o Campeonato Mundial de Carros Turismo da FIA, na qual ele compete com o melhor carro, conseguiu apenas 3 vitórias e ficou em terceiro lugar no campeonato de 2014, atrás de seus companheiros Ivan Muller e José Maria “Pechito” Lopez, esse o “desconhecido” estreante da temporada.

Então o que acontece com o “alien” quando não está em seu hábitat natural? Muito difícil saber, pois há muitas variáveis envolvidas, porém tomo a liberdade para teorizar a respeito. E minha teoria foge um pouco do lado da técnica e habilidade em pilotar, para recair no lado humano, na questão de caráter do piloto. E essa questão é grandemente influenciada pela forma de competição inerente às duas disciplinas, pois enquanto no rally a disputa é contra o relógio, na pista a disputa é direta entre os pilotos e isso exacerba a competitividade e uma certa dose de egoísmo, já mencionada até pelo tricampeão mundial de F1 Nicki Lauda, “Ser egoísta é a única forma de ser campeão”, falando sobre a disputa entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg em 2014. Temos também os casos clássicos e controversos dos títulos mundiais conquistados por Ayrton Senna e Michael Schumacher ao jogarem seus carros sobre os adversários.

Em contrapartida, esse tipo de comportamento não fica tão transparente na pilotagem do rally, seja ele de velocidade, regularidade ou cross-country. Na verdade o que ocorre é justamente o inverso, pois o piloto de rally não está sozinho dentro do carro, ele deve confiar plenamente em seu navegador. E devido à periculosidade dessa brincadeira, podemos dizer que ele confia sua vida a ele, comumente chamado de “os olhos do piloto”. Infelizmente, devido à periculosidade inerente dessa modalidade, talvez esse seja outro fator de união entre os competidores. Fato é que no rally é muito mais comum ver pilotos e navegadores junto a seus adversários, conversando, sendo amigos de verdade.

O que quero aqui não é dizer que todo piloto de pista é um canalha, nem que todo piloto de rally é santo, mas apenas demonstrar essa diferença que percebo ser bastante gritante entre essas duas disciplinas do automobilismo competitivo. Infelizmente não é comum essa troca de modalidade, para que isso pudesse ser mais visível. O ponto é que essa camaradagem, esses sentimentos de colaboração, confiança, amizade muito presentes no ambiente dos rallys deveria se propagar, pois nosso mundo precisa disso urgentemente, mais do que nunca. Por isso: Precisamos de mais pilotos de Rally!

Leave a comment

All fields marked (*) are required

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.