Do começo da Fórmula E



A primeira etapa da história da Fórmula E deixou uma boa impressão, apesar do incidente na última curva entre Nicolas Prost e Nick Heidfeld, que acabou deixando a vitória cair no colo de Lucas di Grassi, tornando-o, obviamente, o primeiro vencedor da história da categoria. O que acaba sendo justo com o piloto, que foi escolhido pelos organizadores como o piloto de testes para desenvolver o carro quando a categoria foi concebida.

Mas essa boa impressão deixada está mais no campo da esperança do que no fator emoção. Isso porque a ideia é boa, tem boas intenções no sentido de ser ecologicamente correta, mas o formato em que foi empregada joga contra o fator emoção, corrida com muitas ultrapassagens e brigas por posição. Explicando: Como toda categoria que pretende ter baixo custo, padroniza-se o máximo possível os componentes. Exemplos desse cenário não faltam, como a Indycar, a Nascar, a Stock Car brasileira, e por aí mundo afora. O problema é que na Fórmula E tudo é padronizado: Chassis, MGU (Motor Generator Unit, ou o motor/gerador), a parte eletrônica, os pneus.

“E qual o problema de ser padronizado?” Alguém certamente se perguntou. O problema é que isso não proporciona o diferencial de desempenho necessário, ou, imprescindível para proporcionar ultrapassagens. Traduzindo: a física básica dita que para haver uma ultrapassagem, é necessária uma certa diferença de velocidade entre dois corpos em deslocamento. Isso é o diferencial de desempenho, que não existe na Fórmula E. A única diferença existente são os pilotos e possíveis acertos de setup dos carros, que bem ou mal, proporcionam  uma diferença mínima. Prova disso é que os 12 primeiros colocados no grid estavam separados por menos de 1s.

“Mas a padronização é que proporciona essa diferença mínima nos tempos de corrida e permite maior igualdade de condições, bem como carros andando próximos!” Outro vai falar. Correto, mas carros andando próximos não é o equivalente a corridas com muitas ultrapassagens e emocionantes. Para provar esse ponto, temos o FIA WEC, que com seu regulamento mais aberto, permite leituras diferentes de cada uma das montadoras participantes da categoria LMP1, e cada uma delas possui configurações totalmentes distintas para seus bólidos. E vemos corridas muito emocionantes com ultrapassagens e resultados inesperados nessa temporada.

A Fórmula E deveria abrir espaço, no futuro, à utilização de diferentes fornecedores de peças pelas equipes, de forma que permita a existência do diferencial de desempenho. Ou então, em duas ou três corridas as pessoas poderão achar a categoria extremamente entediante, caso repita-se o que ocorreu em Pequim na primeira etapa. E o fato de ter sido corrida de rua atrapalha ainda mais, pois o traçado não favorecia as ultrapassagens.

Outra coisa pouco usual introduzida pela categoria foi a troca de carro. Sim, de carro. Isso se deve à pouca capacidade/alta potência dos MGU utilizados. Alguns dirão que é uma coisa interessante por ser diferente, outros acharão completamente descabida essa novidade. Acho que isso joga contra a categoria, pois demonstra uma limitação tecnológica. A organização poderia ter utilizado isso a seu favor, fazendo ao invés de uma corrida com aproximadamente 1 hora de duração, 2 corridas de meia hora, como o FIA WTCC faz. Facilitando a vida das emissoras, e fazendo corridas do tipo sprint, em que o piloto deve partir para cima desde o começo, senão não terá tempo de progredir, caso largue muito atrás do pelotão. E o próprio WTCC prova que isso gera corridas geralmente emocionantes (olha o diferencial de desempenho aí de novo!).

É uma categoria recém nascida e, claro, tem seus defeitos, suas virtudes, e felizmente, um excelente potencial de crescimento. Não é a toa que vemos nomes de peso tendo colocado seus nomes, como Christian Abt, Michael Andretti, Aguri Suzuki entre os donos de equipes e excelentes pilotos como Lucas Di Grassi, Nick Heidfeld, Frank Montagny e outros. Vamos acompanhar e torcer para que os dirigentes consigam vislumbrar a melhor maneira de manter viva essa categoria por muito tempo.

Leave a comment

All fields marked (*) are required

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.