Deixa o cara quieto



Muito tem se falado sobre a vontade ou possibilidade de Rubens Barrichello permanecer na Fórmula 1 em 2012. Muita gente o critica por “não largar o osso” e insiste que ele não tem mais chances de ser campeão, pelo menos não como a que teve enquanto piloto da Brawn. Eu respeito a vontade dele, bem como sempre o respeitei como piloto e sei que é respeitado no “mundo da F1”.

O que muitas das pessoas que o criticam não enxergam é que elas agem da mesma forma que ele. Conheço muitas pessoas que já estão em idade de se aposentar, ou já se aposentaram mas ainda trabalham no mesmo local e na mesma função de antes da aposentadoria (tudo bem que nesse caso o sentido é o do benefício e não o do fim da vida de assalariado). Mas espera: o que a vida do cidadão comum, que trabalha, paga impostos e merece um descanso após décadas de labuta tem a ver com a vida de gala, pompa, viagens, dólares e demais mordomias de um piloto de Fórmula 1???? Eu respondo: Tudo!

Sob a minha óptica de assalariado “celetista” que trabalha para uma grande empresa (não estou aqui me vangloriando, mas escrevo essas linhas por puro prazer), um piloto de Fórmula 1, ou da Indycar, ou do WTCC, é mais um funcionário, que tem suas obrigações e seus direitos, tal como um mecânico, ou engenheiro da equipe. Normalmente um piloto faz aquilo tudo por prazer, claro. Mas além de receber e muito bem, isso não exclui o fato de que ele é apenas um número no sistema de RH daquela corporação, que em termos da categoria máxima do automobilismo pode ter centenas ou até milhares de funcionários.

E tal como um assalariado brasileiro, europeu ou indiano, cada piloto tem suas aspirações. Rubens já foi vice-campeão do mundo, mas começou em uma equipe pequena, e por méritos próprios foi galgando seu lugar em equipes maiores. Mas eis que alguém vai dizer que ele é um fracasso, que nunca ganhou título e tudo aquilo que estamos acostumados a ouvir. Mas fazendo uma analogia com o mundo corporativo, qual seria o ápice da carreira de uma pessoa “comum”? Virar CEO de uma grande empresa? Muito bem, quantas grandes empresas temos no Brasil e sendo um CEO por empresa, eu diria que as chances de alguém chegar a esse cargo máximo é bem menor do que o de um piloto ser campeão de Fórmula 1. E mesmo assim, por que alguém que não chega a esse cargo não é considerado um perdedor, um “pé de chinelo”?

Por que o simples fato de estar empregado, com chances de crescer na carreira e eventualmente fazer o que gosta, sim tenho certeza que não é a maioria das pessoas que faz o que realmente as satisfaz, ao contrário de um piloto que se está ali é por que é capacitado e com certeza ama o que faz, pois as dificuldades são tamanhas que fariam desistir um simples mortal que estivesse ali obrigado (mas por quem?).

Vi na entrevista reprisada pela TV Cultura de Ayrton Senna ao Roda Viva em Dezembro de 1986 que ele poderia ter fechado contrato com a Ferrari para 1987 e com um salário bem mais alto do que ele ganhava na Lotus em 86, mas preferiu ficar pois o motor Honda que seria usado no ano seguinte teria mais competitividade que o Renault usado naquele ano e ele apostava nisso como chance de sucesso e gostava de toda a equipe de mecânicos que com ele trabalhava, e foi isso que o fez ficar na Lotus em 87. Tá e daí, o que isso tem a ver com o resto do texto?

Tem a ver só com o fato de que Senna é mais um exemplo que corrobora com tudo o que foi dito até aqui: ele comecou numa Toleman em 1984 e já no ano seguinte foi para uma equipe maior, que já foi Campeã mundial, mas que vinha de vacas magras nos últimos anos, e lá ficou, com um bom número de vitórias até que se transferiu para a McLaren, uma das duas maiores equipes do momento em 1988, mesmo ano que foi campeão, e lá ficou até 1994 quando mudou para a equipe que era a mais competitiva até 1993, a Williams. O resto todo mundo conhece a história, mas o ponto é que Senna era como um funcionário dedicado que sempre visou crescer na carreira e felizmente chegou onde queria.

Enquanto isso, temos Rubens Barrichello que quase chegou lá no ápice, mas mesmo após quase 20 anos de Fórmula 1, ele ainda ama o que faz e ganha por isso. E mesmo não tendo chances de disputar o título, com certeza tem desafios a cada final de semana de corrida, talvez muito mais desafios que Sebastian Vettel, afinal sabemos das dificuldades que a Williams vem enfrentando nessa temporada. Mas o importante é ter desafios, gostar do que faz, receber por isso e enxergar os resultados do esforço empregado nessa luta. Quando não é obtido o resultado esperado, aí é o caso de repensar o que vem sendo feito e tomar as atitudes necessárias para obtê-los, e mais uma vez conseguimos observar similaridades entre os dois “mundos”.

Por isso, deixem o Barrichello fazer o que ele gosta!

Leave a comment

All fields marked (*) are required

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.